O Trabalho Sujo com a Morte, o Estigma e a Identidade no Ofício de Coveiro

Daniel Francisco Bastos Monteiro, Verônica Fujise Pereira, Laureane Leopoldino de Oliveira, Oscar Palma Lima, Alexandre de Pádua Carrieri

Resumo


Este artigo tem como objetivo compreender questões acerca do ofício de coveiro e identificar quais as marcas sociais existentes na profissão, como ela é vista pelos profissionais e como estes se identificam com o seu exercício. Optou-se por desenvolver uma pesquisa de cunho qualitativo, na qual foram entrevistados 08 coveiros de 03 cemitérios de Belo Horizonte (02 públicos e 01 judaico). Para a análise dos relatos, foram utilizadas categorias da Análise Linguística do Discurso, sendo possível identificar dois percursos semânticos a respeito da profissão de coveiro. O primeiro diz respeito ao discurso que retrata as categorias estigmatizantes que permeiam a profissão e ao preconceito e discriminação que os coveiros sofrem perante a sociedade. Já o segundo percurso está atrelado ao processo de construção das identidades dos coveiros e a maneira como eles passaram a lidar com a morte após começar a trabalhar com uma atividade que está diretamente ligada a ela. Concluímos este trabalho, portanto, com reflexões acerca dos estigmas presentes na profissão de coveiro e sugestões para pesquisas futuras. 


Palavras-chave


Coveiros; Estigma; Identidade; Trabalho Sujo.

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