Nunca Seremos Desenvolvidos: um esforço de desmantelamento da narrativa subjacente ao conceito de desenvolvimento

Giselle Alves Silva, Débora C. Paschoal Dourado, Jackeline Amantino de Andrade, Raoni Fernandes Azerêdo

Resumo


O presente ensaio tem por objetivo analisar a trajetória percorrida pelo construto desenvolvimento, desde suas concepções preliminares até a posição hegemônica que assumiu desde a segunda metade do século XX, ressaltando os aspectos que evidenciam a impossibilidade de os países ditos subdesenvolvidos atingirem o tão almejado status de desenvolvidos. O percurso deste ensaio assentou-se em uma breve apresentação das abordagens teóricas predominantes no campo de estudos sobre o desenvolvimento: modernizante, estruturalista e pós-estruturalista. Partindo de um prisma pós-estruturalista, o trabalho avança em direção as críticas à perspectiva hegemônica de desenvolvimento, e alerta que o discurso de desenvolvimento criado para a periferia do sistema capitalista, baseada na promessa de progresso linear e prosperidade econômica, é falacioso, pois ao invés de promover melhoria na qualidade de vida da população, observou-se um cenário de forte concentração de renda no mundo, aliada a uma forte deterioração das condições ecológicas, sociais e culturais do planeta. O ensaio finaliza com a apresentação do pós-desenvolvimento como um novo movimento intelectual que se propõe a desenhar caminhos plurais e heterogêneos, substituindo o sonho perverso de um sistema unificado e integrado sob a dominação ocidental. E confirma a pressuposição teórica assumida de que em função do modo como os países da África, Ásia e América Latina foram subordinados à lógica desenvolvimentista, nunca seremos desenvolvidos.

Palavras-chave


Desenvolvimento. Subdesenvolvimento. Pós-desenvolvimento.

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DOI: http://dx.doi.org/10.9771/ns.v11i20.34951

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