A contextualização dos saberes para um ensino de Biologia que reconheça as identidades e diferenças

Nivaldo Aureliano Léo Neto

Resumo


A desvalorização dos saberes pertencentes a povos e comunidades tradicionais ocasiona práticas de violência epistêmica e racial. Essas relações assimétricas de poder, iniciando-se no processo de colonização, persistem até os dias atuais, reverberando nas formas de ensino-aprendizagem (re)produzidas, por exemplo, nas instituições escolares. Partindo da possibilidade do ato de educar em uma perspectiva etnocológica, esse trabalho se volta para a reflexão sobre o potencial dos saberes locais para um ensino de Biologia pautado em uma educação antirracista, libertadora e democrática. Indica-se aqui a relação inextrincável entre Ciências e Culturas ao se buscar a valorização de uma pluralidade epistemológica que reconheça as identidades, exemplificando-se, nesse trabalho, os processos de educação (escolar ou não) presentes em terreiros de Candomblé, povos indígenas e comunidades quilombolas.

Palavras-chave


Cultura e Educação; Educação Patrimonial; Educação para a Diversidade; Relações Raciais

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DOI: http://dx.doi.org/10.9771/re.v7i3.26477

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