O atendimento à queixa escolar na educação pública baiana

Lygia Sousa Viegas

Resumo


O presente artigo apresenta aspectos de uma pesquisa que objetivou identificar e analisar concepções e práticas de psicólogos da rede pública de educação baiana em relação à queixa escolar, dando ênfase aos processos de psicologização da educação. Em um Estado marcado por altos índices de analfabetismo, reprovação e evasão escolar, os alunos que não correspondem às expectativas da escola são encaminhados para serviços especializados de psicologia, revelando a suposição de que o fracasso é resultado de problemas individuais ou familiares que só podem ser resolvidos fora do âmbito escolar. A pesquisa buscou compreender o que psicólogos que atendem essa demanda entendem em relação ao fracasso escolar, visando analisar se tais profissionais incorporaram uma leitura crítica do fenômeno. Participaram da pesquisa 68,3% dos psicólogos que atuam na rede pública de educação baiana, os quais responderam a um questionário com perguntas relativas à sua formação, concepções e práticas. Análise dos questionários aponta o predomínio da prática psicologizante no atendimento à queixa escolar, já que os psicólogos pouco investigam aspectos da história escolar dos alunos encaminhados, realizando, ao contrário, aplicação de testes de inteligência e personalidade, bem como psicoterapia individual à criança e orientação de pais. Nesse sentido, a pesquisa aponta para a necessidade de romper com esse olhar, propondo aos psicólogos uma leitura crítica do fracasso escolar, que atinge uma massa populacional significativa e cuja superação deverá ser enfrentada por políticas públicas consistentes no campo da educação.

Palavras-chave


fracasso escolar; psicologização; educação básica.

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DOI: http://dx.doi.org/10.9771/2317-1219rf.v5i1.14464

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