Equipe da Revista Cadernos de Gênero e Diversidade recebeu Laura Martendal

A equipe da Revista Cadernos de Gênero e Diversidade (NEIM/BEGD/UFBA) recebeu para um bate-papo hoje a graduanda em Serviço Social na Universidade Federal de Santa Catarina, Laura Martendal, que desenvolve uma pesquisa sobre Transexualidade e Mercado Formal de Trabalho, à ser apresentada como Trabalho de Conclusão de Curso em julho próximo. O bate-papo ocorreu entre a equipe editorial da CadBEGD, composta pelos graduandos Eloíde Leite, Daniel Ventin e Jeferson Reis, além da presença do Editor, Felipe Fernandes. A estudante relatou as dificuldades em ser uma mulher transexual no meio acadêmico e social, ressaltando a importância de se afirmar politicamente em um ambiente arcaico, preconceituoso e heteronormativo.




Segundo Laura, no momento do seu ingresso na universidade em 2007 não existiam políticas que contemplassem a causa trans e esta realidade resultou em diversos problemas no seu desempenho e permanência na faculdade. Um dos pontos mais frequentes foi a recusa de professores em chamá-la pelo seu nome, problema compartilhado por outras alunas trans que acabaram se organizando na universidade em torno de uma luta pelas suas causas. A implementação do uso do nome social de maneira oficializada pela universidade, garantida na UFSC em resolução de 24 de Abril de 2012, tem sido um importante elemento para a permanência das estudantes transexuais. Hoje, muito mais confiante no meio acadêmico, Laura Martendal lembra de um passado marcado por conflitos e silenciamento em sala de aula, pelo desrespeito à sua condição como mulher trans, encontrando pouco apoio por parte do corpo docente e de funcionários. Para ela uma professora muito importante foi Miriam Grossi, antropóloga, com quem trabalhou como bolsista de extensão durante três anos e que se mostrou uma figura importante para fortalecer a causa.
Na Universidade Federal da Bahia o nome social é uma conquista para o acesso e permanência de pessoas trans. Todavia esse direito não garante o respeito dos docentes e discentes com relação a sua identidade, uma vez que, mesmo com essa política - como nos narrou Laura - estas alunas e alunos ainda são submetidas a situações que causam constrangimento propiciando desta forma um processo de distanciamento, e provável evasão da vida acadêmica, colocando esse grupo como um grupo marginalizado e com uma vida social, no que tange o mercado de trabalho, sem perspectivas de oportunidades de mudança. 
O mercado de trabalho também foi citado por nossa entrevistada, Laura, que afirma que já ficou mais de dois anos buscando um emprego, e toda vez em que ela chegava ao local de entrevista e descobriam sua condição de mulher trans, davam um jeito de fazê-la esperar em uma sala separada até que Laura desistisse da disputa da vaga. Laura comparou a discriminação contra as pessoas trans com a discriminação racial, que é perversa e machuca, lembrando da importância de estar sempre se auto afirmando. Além de falar que não basta ser a melhor na sua área de atuação, é necessário se conscientizar da importância de se preparar para buscar uma estabilidade financeira para se manter independente. Há um ano Laura foi aprovada em um concurso, se tornando funcionária pública da Prefeitura de Florianópolis, na área de assistência social. Laura se sente hoje realizada e afirma que conseguiu realizar seu intento de se integrar no mercado formal de trabalho.
Laura afirma a necessidade de transformar esse estigma que é a transfobia. Entretanto é preciso uma abertura dentro das empresas privadas para pessoas que não se alinham nas normas hegemônicas de gênero, permitindo um acesso maior dessas mulheres e homens trans ao emprego formal. Segundo Laura muitas dessas mulheres são forçadas a trabalhar com a prostituição. Apesar de não ser contra a prostituição e defender a sua regulamentação, Laura afirma que muitas pessoas que trabalham na indústria do sexo não o fazem como uma escolha pessoal. Laura afirma estar cansada de ver a imagem da mulher trans construída como objeto sexual do fetiche masculino. Ela chegou a comentar que sofreu preconceito até mesmo dentro de suas relações amorosas, quando o parceiro é inseguro em relação à sua imagem e quando não a via como uma mulher e sim como uma “trava”.
Hoje, fazendo parte de coletivos de luta pela causa transexual, Laura relata como as demandas do seu grupo têm batido de frente com as ideias conservadoras, sendo um exemplo o indeferimento de todos os processos de mudança de nome de transexuais motivado pela intolerância religiosa de um juiz de Santa Catarina. O processo coletivo que participou para retificação de seu nome de registro foi indeferido sem argumentos justos.
O bate papo foi descontraído. Com muita simpatia nossa entrevistada nos contou um pouco de sua trajetória na academia. Em alguns momentos podíamos perceber os olhos lacrimejados e abatidos de quem lembrava de que lugar estava falando e de quem sentia muito por passar por tais constrangimentos. Fizemos algumas perguntas e ouvimos atentamente tudo que ela falava.
Para encerrar a entrevista, agradecemos, fizemos uma seção de fotos e Laura foi convidada a participar da seleção de textos para a primeira publicação da Cadernos de Bacharelado em Gênero e Diversidade ao que prontamente aceitou para a nossa alegria. Convite esse que se estende a todas(os) as(os) leitoras(es), lembrando que o prazo para o envio dos textos é até o dia 31 de Maio deste ano, e a primeira publicação da revista está prevista para Outubro.