Negra ou pobre? Migrante ou despejada? Carolina de Jesus e o enigma das classificações (1937-1977)

Ana Cláudia Castilho Barone

Resumo


A desigualdade urbana em São Paulo tem sido majoritariamente debatida como decorrência de diferenças econômicas na disputa pelo espaço. A obra de Carolina Maria de Jesus, no entanto, oferece indícios de que, além da pobreza, deve-se acrescentar o componente racial como fator operador dessa desigualdade. A trajetória descrita pela escritora é recuperada neste artigo como instrumento de legibilidade para o problema racial implicado nas ações de remoção de favelas nessa cidade. Os escritos de Carolina de Jesus oferecem um registro singular do período, do ponto de vista de alguém que vivenciou por dentro as políticas de desfavelamento em São Paulo. Confrontam-se os múltiplos significados do léxico empregado em sua obra com as práticas do poder público para as políticas habitacionais do período, permitindo entrever a distância entre as justificativas dadas para essas operações e as efetivas circunstâncias que as condicionaram.

 

 


Palavras-chave


Palavras-chave: Carolina de Jesus – favela do Canindé – negros em São Paulo – trajetória urbana – raça e espaço urbano.

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“Perto do fim a favela do Canindé; mais duas mudanças”. Folha de S. Paulo, 06/12/1961.

“Favela do Canindé acabou: de 215 barracos restam 17”. Última Hora, 11/12/1961.

“Prefeito derruba hoje o último barraco da favela do Canindé”. Ultima Hora, 30/12/1961.




DOI: http://dx.doi.org/10.9771/aa.v0i59.24977

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