Enxergando os mortos com os ouvidos: a reelaboração da memória da escravidão através da figura umbandista dos pretos-velhos

Lívia Lima Rezende

Resumo


Tendo como base os conceitos de práticas, representações e apropriação de Roger Chartier, memória coletiva de Maurice Halbwachs e memória subterrânea de Michael Pollak, propõe-se uma análise das formas como a figura umbandista dos pretos-velhos é apropriada atualmente. O estudo, pautado pela metodologia da história oral, permitiu analisar as formas como a experiência de se consultar e conviver regularmente com os pretos-velhos influencia na construção das perspectivas, dos valores e das expectativas desses consulentes, por meio da reelaboração da memória da escravidão negra no Brasil. Foi possível notar, sobretudo, a importância que essas entidades possuem para as pessoas que se reconhecem como negras e estabelecem um vínculo mais próximo com essa figura do escravo sacralizado.

Palavras-chave: umbanda - representação - pretos-velhos - história oral -
memória.

Abstract

Based on the concepts of practices, representations and appropriation (Roger Chartier), collective memory (Maurice Halbwachs) and underground memory (Michael Pollak), this article analyzes contemporary appropriations of Umbanda’s pretos-velhos (“old black” spirits). Using oral history methodology, it investigates how the experience of regularly visiting and consulting with pretos-velhos informs clients’ constructions of perspectives, values and expectations. The focus is on the re-elaboration of the memory of African slavery in Brazil. The analysis illustrates the importance of these entities for those who recognize themselves as black and who establish in this way a closer bond with this figure of a sacralized slave.

Keywords: umbanda - representation - pretos-velhos - oral history - memory.


Palavras-chave


umbanda, representação, pretos-velhos, história oral, memória

Texto completo:

PDF

Referências


BOA Esperança. Músicas de Emicida. Vagalume, 2017. Disponível em: . Acesso em 10 jan. 2017.

BRUM, Eliane. No Brasil, o melhor branco só consegue ser um bom sinhozinho. El País, Madrid, 25 mai. 2015. Opinião. Disponível em: . Acesso em: 6 set. 2015.

CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.

CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador; conversações com Jean Lebrun. São Paulo: UNESP, 1998.

CHARTIER, Roger. Escutar os mortos com os olhos. Estudos Avançados, São Paulo, vol. 24, nº. 69, p. 7-30, mai.-ago. 2010.

DIAS, Rafael de Nuzzi; BAIRRÃO, José Francisco Miguel Henriques. Aquém e além do cativeiro dos conceitos: perspectivas do preto-velho nos estudos afro-brasileiros. Memorandum 20, Belo Horizonte; Ribeirão Preto, abr. 2011. Disponível em: . Acesso em: 31 ago. 2016.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.

MAGALHÃES, Thamiris. Pluralismo, transformação, emergência do indivíduo e de suas escolhas. Revista do Instituto Humanitas Unisinos, São Leopoldo, nº 400, ano XII, 27 ago. 2012. Disponível em: . Acesso em: 30 ago. 2016.

NETO, Pasquale Cipro. ‘É uma suruba isso aqui’. Folha de São Paulo, São Paulo, 25 fev. 2016. Colunistas. Disponível em: . Acesso em 2 dez. 2016.

POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, nº 3, 1989. Disponível em: . Acesso em: 15 jun. 2014.

PRANDI, Reginaldo. O Brasil com axé: candomblé e umbanda no mercado religioso. Estudos Avançados. São Paulo, vol. 18, nº 52, set-dez 2004. Disponível em: . Acesso em: 18 out. 2015.

RIOS, Ana Lugão; MATTOS, Hebe. Memórias do cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-abolição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

SAKAMOTO, Leonardo. Mais uma pessoa amarrada em poste. Blog do Sakamoto, São Pulo, 7 jul. 2015. Mais um linchamento. Disponível em: . Acesso em: 7 jul. 2015.

SILVA, Vagner Gonçalves da (Org.). Imaginário, Cotidiano e Poder: memória afro-brasileira. São Paulo: Summus / Selo Negro, 2007.

TODO camburão tem um pouco de navio negreiro. Músicas de O Rappa. Letras, 2017. Disponível em: . Acesso em 10 jan. 2017.

TRINDADE, Liana. Conflitos sociais e magia. São Paulo: Hucitec, 2000.

VAINFAS, Ronaldo. As mil faces do racismo. Revista Tempo, Niterói, vol. 20, nº 36, Resenha, 2014. Disponível em: . Acesso em: 6 nov. 2015.




DOI: http://dx.doi.org/10.9771/aa.v0i57.23442

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


 


ISSN 0002-0591 (impresso) | 1981-1411 (online)